Jornais do Brasil e de Portugal ouvem pouco as crianças, diz estudo

Folha de 29 de abril de 2012, analisada no estudo

   Capa da Folha de 29 de abril  de 2012; edição foi analisada no estudo

Crianças sem direito a opinião. É assim que meninos e meninas aparecem em jornais do Brasil e de Portugal, segundo artigo publicado na revista “Estudos em Jornalismo e Media”, da Universidade Federal de Santa Catarina, no Brasil.

A autora da investigação, Juliana Doretto, analisou sete edições, entre abril e maio de 2012, dos jornais “Folha de S.Paulo” e “O Estado de São Paulo”, no Brasil, e “Público”, em Portugal. Foram encontradas 37 peças que abordavam assuntos relacionados à infância e apenas 25% delas tinham entrevistas com crianças: um texto no diário português, dois no “Estado” e “quatro” na “Folha”.

“Ainda que as notícias se voltem para assuntos relacionados às crianças e aos jovens, seus discursos não aparecem: eles são representados como objetos de ações ou tornam-se sujeitos genéricos em notícias que trazem índices gerais de obesidade ou de estresse escolar”, afirma a pesquisadora, doutoranda na Universidade Nova de Lisboa, em trecho do estudo.

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Pesquisa diz que 38% das crianças leem notícias, mas entrevista pais

Sábado de manhã alegrei-me ao ler um título da “Folhinha”, suplemento infantil da “Folha de S.Paulo”:  Pesquisa Datafolha mostra que 38% das crianças de São Paulo leem notícia. 

O texto diz que o levantamento, feito na cidade de São Paulo, apontou que “38% das crianças de seis a 12 anos leem notícias em algum meio de comunicação. Entre elas, 35% se atualizam pelo computador, enquanto 20% leem jornal em papel e 12% veem notícias no tablet.

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A primeira dúvida que me ocorreu foi sobre o nível socioeconômico das crianças ouvidas: as de renda mais baixa obviamente têm acesso mais restrito não apenas ao computador e ao tablet mas também ao próprio jornal. As escolas, públicas, em que estudam também podem apresentar deficiências estruturais que impedem o uso do jornal em sala de aula. Sem falar na falta de professores…

No entanto, posteriormente chamou-me a atenção a legenda do infográfico com os dados do estudo, que diz: “Pesquisa Datafolha feita com 615 pais de crianças”. Imagino que o levantamento tenha sido feito por telefone, e que a conversa com menores de idade, sem autorização por escrito dos pais, poderia ter tornado a pesquisa ilegal. No entanto, é um fato que faz toda a diferença nos dados obtidos.

Na verdade, 38% dos pais dizem que as crianças leem notícias. Se perguntarmos às próprias crianças, o número pode ser maior ou menor: até que ponto os pais conhecem os hábitos de leitura de seus filhos?; se perguntaram às crianças antes de responder ao pesquisador do Datafolha, como saber se as crianças responderam afirmativamente para agradar aos pais. É claro que esse tipo de falsa afirmação pode ocorrer também quando as crianças são ouvidas diretamente: elas podem achar que há uma resposta certa para a pergunta feita, aquele que parece mais “correta”. Mas ouvir os pais parece ser um filtro desnecessário nesse caso, em que o número de crianças nem é elevado.

Por fim, a “Folhinha” fala com crianças de três colégios particulares de São Paulo – Porto Seguro, Santi e Mackenzie. O público leitor do suplemento é, em geral, filho do leitor da “Folha”, cujas pesquisas do periódico mostram que tem bom poder aquisitivo. Mas por que a “Folhinha” não ouviu crianças de escola pública? Afinal, o título é genérico – “crianças -, mas os meninos e as meninas de colégios paulistanos são apenas uma parte das “infâncias” do Brasil.