Pesquisadora brasileira estuda telejornal para crianças na França

No  3º Congresso sobre Literacia, Media e Cidadania, em Lisboa, conheci o trabalho de Mariana Gomes, brasileira e doutoranda em Ciências da Informação e da Comunicação na Université Paris 3 – Sorbonne Nouvelle, com bolsa da Capes.

Ela apresentou artigo sobre o telejornal para crianças Journal Junior, do canal franco-germânico Arte. Fiz uma pequena entrevista com ela, para saber mais sobre a pesquisa que desenvolve na França:

Qual o objetivo da sua pesquisa? Suas perguntas de investigação?
Minha pesquisa de tese é sobre a qualidade na televisão e sobretudo no que diz respeito aos programas infantis. A televisão no Brasil é a melhor amiga da mãe que precisa trabalhar, ao passo que na França é a maior inimiga, sendo banida das salas de estar.

Por que decidiu estudar o tema?
Decidi estudar este tema quando, ainda estudante de mestrado, visitei algumas crianças em Versalhes, na França, e deparei-me com uma sala com uma televisão bem antiga. Perguntando se ainda funcionava, responderam-me que na verdade era utilizada somente para ver DVDs e que nada na televisão pode ser aproveitado. Ao escutar esta afirmação com orgulho por parte da família, decidi estudar, através da comparação com o Brasil, se a televisão é realmente este bicho-papão para as crianças.

Sobre a comunicação que você fez sobre Journal Junior: pode resumir as principais conclusões do seu artigo?
O Journal Junior é um perfeito programa do canal franco-alemão Arte para ilustrar a possibilidade de uma literacia midiática. Ao mostrar eventos do quotidiano em um formato de um telejornal, o programa contribui para o desenvolvimento crítico da criança em relação à mídia. Infelizmente, os canais públicos franceses ainda têm dificuldade em criar formatos que consigam dar conta dessa necessidade. Assim, o Journal Junior é um terreno fértil para pesquisadores que, como eu, procuram analisar a qualidade na programação infantil de televisão.

Veja um trecho do Journal Junior (em francês), sobre o atentado ao jornal Charlie Hebdo:

Após 40 anos, Newsround deixa principal canal da BBC

A notícia é velha, mas soube dela apenas agora, por meio do acadêmico inglês Nick Couldry. O Newsround, programa de notícias voltado ao público infantil, saiu do BBC One, o principal canal do sistema público, e foi para o CBBC, específico para crianças — onde já era exibido desde a criação do canal, há dez anos.

A mudança ocorreu no fim de 2012, após 40 anos no ar no canal One — o início do programa foi em 1972, com o nome de John Craven’s Newsround, o então apresentador. Segundo informações do último programa exibido no principal canal, a justificativa alteração foi a de que “cinco vezes mais crianças” assistiam ao programa no canal infantil do que na BBC One. Joe Dowin, diretor do BBC Children’s, disse que a separação não implicaria que as famílias não vissem mais o programa juntos, já que havia shows tanto no canal infantil tanto no One que atraíam a audiência familiar.

Não há como negar, entretanto, o desprestígio que a mudança trouxe ao programa e, mais do que isso, a marca de que a programação infantil, assim como todas as arenas nas quais as crianças são os protagonistas, devem ser separadas do dito mundo adulto — quando, na verdade, as crianças compartilham a mesma comunidade, a mesma cidade, o mesmo país dos adultos.

O site do Newsround tem os vídeos dos programas, mas não posso vê-los daqui de Portugal. Há algo no YouTube, do qual retiro o vídeo abaixo [sem legendas] — a estrutura do programa são notas cobertas, lidas pelos apresentadores, e alguma reportagem. Os temas são, além de “hardnews”, nacionais e internacionais, esportes, entretenimentos (como produções culturais, celebridades e curiosidades), bichos e ciências. Há certo estímulo à participação das crianças pela página online do programa e, nas reportagens, há sempre a presença de crianças. Um bom exemplo de jornalismo infantil, ainda que, agora, com menos destaque.

RTP volta a ter programa jornalístico para crianças

O canal público português, a RTP, retomou a produção do Diário XS, programa noticioso para crianças que já tinha sido exibido entre 2010 e 2012. De volta à grade do canal, 2, o minijornal é transmitido de segunda a sexta –em dois horários, por volta das 7h e das 17h10 — e tem cinco minutos de duração.

Sem títuloSegundo o site da RTP2, “o DIÁRIO XS é um noticiário extra sofisticado que informa os jovens dos 8 aos 12 anos sobre os acontecimentos nacionais e internacionais da política, da ciência, das artes, do desporto, da escola e da meteorologia de uma forma extra simples […] O telejornal que faltava para os jovens dos 8 aos 12 anos”. 

São notas cobertas (imagens e narração, sem a figura aparente do jornalista), com poucas e curtas entrevistas — não feitas para o telejornal, mas reaproveitadas de material da RTP –, sobre assuntos nacionais e internacionais, esportes, artes e ciência. A escalada (ou alinhamento, em Portugal) segue a estrutura de um telejornal convencional, com “hardnews” nacional ou internacional ocupando destaques — muitas vezes, é economia que abre o programa — e assuntos leves fechando o jornal — o encerramento de fato se dá sempre com a metereologia. O tom é didático, e o uso de infográficos se limita, em geral, a mapas.

Nota-se que é um programa sem grandes investimento financeiros, mas é notável o esforço da RTP em colocar um conteúdo assim no ar. Aliás, por minha pesquisas, percebo que o canal tem produzido, pelo menos desde 2006, formatos jornalísticos dirigidos a crianças. Nossa TV pública no Brasil — mesmo a TV Cultura, de SP, reconhecida pela qualidade de sua programação infantil — não tem nada nesse sentido.

Os programas podem ser vistos aqui.

Canal italiano Rai tem telejornal para adolescentes

Encontrei mais um – raro – exemplo de telejornalismo para as crianças. Trata-se do italiano Tiggì Gulp, do canal público Rai Gulp (uma vertente para crianças da rede Rai). No site, o programa é definido para adolescentes, mas, pela minha avaliação, a atração é bastante acessível para as crianças menores.

 

rai

Há notas cobertas, com atualidades — como a morte de uma girada para servir de comida a leões em um zoológico; uma adolescente marroquina que atua como juíza de futebol; uma boneca usada na indústria da moda italiana –; entrevistas (sem repórter) — com uma cantores, por exemplo –; e a presença de crianças repórteres (que, em uma das matérias, explicam como funciona a coleta seletiva de lixo na pequena cidade de Ferla, Siracusa) .

Os meninos e meninas repórteres são muito duros — o programa não explora a espontaneidade das crianças –,  apresentadora Nadia Contino também parece pouco à vontade, mas são inegáveis as virtudes da proposta: um programa diário (segunda a sexta), com cerca de dez minutos de duração, no fim da tarde; presença de meninos e meninas no vídeo; esforço para trazer notícias de interesse do cotidiano de crianças e jovens; linguagem não infantilizada. Pena não termos algo assim na TV brasileira.

 

Entrevista com Paula Saldanha relembra telejornal ‘O Globinho’

Estou pesquisando antigos veículos, no Brasil e em Portugal, que trabalharam com jornalismo infantil — se souber de algum, por favor, me avise (meu e-mail está aí ao lado). Nessa busca, encontrei uma entrevista com Paula Saldanha e Ana Olmos, no “Ver TV”, da TV Brasil, debatendo o telejornalismo para crianças. O programa foi ao ar em 13 de outubro de 2010. [O bloco 2 está sem link].

Bloco 1: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/tv/materias/VER-TV/189830-VER-TV-DEBATE-JORNALISMO-INFANTIL-(BL.1).html

Bloco 3: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/tv/materias/VER-TV/190085-VER-TV-DEBATE-JORNALISMO-INFANTIL-(BL.3).html

Texto no site explica que “o Globinho, programa criado em 1977, em plena ditadura militar”,e durou até 83, com Saldanha na apresentação. “O Globinho foi inovador no formato e no conteúdo, com apresentadores adolescentes e animações de vanguarda. Mas antes e depois dele, muito pouco aconteceu nessa área”.

No vídeo, Paula diz que:

50% da audiência do Globinho era de adultos. Era um telejornal infanto-juvenil em época de ditadura, sem censura prévia. Era apresentado às 5h30 da tarde, basicamente notícias, mas no final colocamos uma parte de entretenimento, com filmes de animação. […] Eram cinco praças: Rio São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Recife […] Tinha o sotaque do Nordeste. […] Debatíamos questões por exemplo da seca do Nordeste, coronéis, pão e circo pro povo. De repente as pessoas começam a ficar assim: ‘Oba! Esse jornal não tem censura prévia. Vamos assistir!’.

Era fabuloso. Reuniam material de várias partes do mundo. Muitas vezes recebiam rolinhos de filme e colocávamos no ar, porque não tinha censura prévia. Foi proibido no jornal de Minas. Recebi o material e coloquei lá. SNI [Serviço Nacional de informação] lá. ‘A senhora está falando mal do governo’.

Muitas das reportagens eram pautadas, produzidas [e apresentadas] por crianças. Iam mostrar como faziam seus livros manufaturados, seus espetáculos.

Fizemos uma série “Crianças de todo o Brasil’. Primeira produção independente que fizemos. […] Muitas trabalhavam. Crianças carvoeiras, na Baixa do Sapateiro, em Salvador […] E entregamos. Fizemos de graça. […] Paula [cinegrafista], que tinha 1,85 m. […] Tenho de captar o momento, o olhar, a expressão. Tava sempre no chão. Com a câmera na altura do olhar da criança. do jornal.

Tínhamos que pegar material que falávamos de coisas complexas [do exterior, produção científica] e trocar em miúdos, de maneira irreverente, mas que você não reduza o conteúdo.

Abaixo, um vídeo do Globinho, o único do You Tube: