Reflexões sobre entrevistas com crianças publicadas em duas coletâneas

9788547306694O trabalho de falar com crianças, em entrevistas individuais ou em grupo, desenvolvido durante o meu doutorado, deram origem a dois capítulos de livro, em que falo sobre as dificuldades (e os acertos) ao pesquisar a relação dos pequenos com a mídia.

A obra Trabalho do Pesquisador: Os Desafios da Empiria em Estudos de Recepção” (Appris, 2017) surgiu nas sessões do GT Recepção: processos de interpretação, uso e consumo midiático, realizadas no  Encontro Nacional da Compós de 2016, do qual participei. No livro, organizado por Roseli Figaro e Liliane Brignol, os autores discutem o trabalho do pesquisador em estudos de recepção, discutindo-se o como fazer: “como se planeja e se realiza cada passo da pesquisa; a necessária reflexão sobre as escolhas e os recortes feitos na constituição do objeto, bem como no questionamento das rotinas produtivas do pesquisador em campo”, diz o resumo da obra.

No capítulo de minha autoria, “Deixe as crianças falarem”, trago uma espécie de “diário de campo” do doutoramento, explicitando minhas escolhas metodológicas, as dificuldades enfrentadas durante as situações de entrevistas e a necessidade do compartilhamento de visões de mundo, no lugar do questionamento supostamente “objetivo” e “imparcial”.

paula melgaçoJá a obra “‘Como a tecnologia muda o meu mundo’: imagens da juventude na era digital” (organização de Melgaço, Dias, Souza e Moreira; Appris, 2017) propõe diferentes leituras, realizadas a partir de desenhos feitos por alunos de uma escola de arte, acerca das posições adotadas por jovens quando se veem questionados sobre o lugar que a tecnologia ocupa em suas vidas e de que forma suas subjetividades são afetadas por ela”, segundo a sinopse do livro.

Reproduzo em seguida trecho do prefácio, de autoria de minha orientadora de doutorado, Cristina Ponte (Universidade Nova de Lisboa), em que ela fala do capítulo que escrevi:

É a partir do título da imagem criada por Gabriel Nogueira, Em meio às luzes, que Juliana Doretto, jornalista e especialista em Comunicação/Estudos dos Media, elabora o seu capítulo, Em meio a palavras e sinais. A imagem é quase monocromática e evoca a ‘comodidade tecnológica’: é a tecnologia que introduz os elementos de cor no percurso do jovem urbano, como Juliana observa. Para Gabriel, a tecnologia facilita a sua vida, pois cada vez tem menos de se preocupar com memorizar, procurar informação para trabalho escolar, onde encontrar um serviço. Gabriel expressa nesse ‘encantamento’ pelas luzes do digital uma cultura presente entre jovens brasileiros e portugueses, como de outras partes do mundo, e que Juliana pesquisou no seu doutorado. É com base nessa experiência que a pesquisadora apresenta orientações para o imperativo de ouvir jovens e de observar os seus sinais como condição de uma comunicação entre gerações que favoreça a sua própria reflexão e distanciamento crítico em relação ao ‘encadear digital’: respeitar o conforto do entrevistado, o seu tempo, os assuntos que lhe interessam, observar os seus gestos e posturas, trocar experiências.

 

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Livro do grupo de pesquisa MidiAto tem artigo sobre a revista Girls Recreio

capaO livro “Mediações críticas: representações na cultura midiática”, organizado pelo MidiAto, Grupo de Estudos de Linguagem: Práticas Midiáticas, da USP, lançado no fim de 2017, traz o artigo “E precisa de revista para menina? A representação da girl de Recreio”, de autoria de Renata Costa e minha.

O livro, organizado por Marcio Serelle (PUC Minas) e Rosana Soares (ECA/USP), é o primeiro publicado pela Rede de Pesquisa em Cultura Midiática – Metacrítica (USP, PUC Minas e UFSC), contando com 16 artigos que abordam temas diversos, como os do jornalismo impresso e audiovisual, das séries televisivas e das redes sociais, estabelecendo o campo da crítica de mídia como uma crítica das mediações.

Em nosso artigo, falamos sobre a publicação “Girls Recreio”, derivada da revista infantil Recreio, lançada pela editora Caras lançou em março de 2016. O magazine (aparentemente já extinto) era voltado apenas para meninas, de 6 a 11 anos, e já foi alvo de um post neste blog (reflexões, aliás, a partir das quais estruturamos o texto).

Os estudos sobre o jornalismo infantojuvenil mostram que garotos e garotas se interessam por assuntos em comum e não reivindicam publicações destinadas a crianças com gêneros diferentes. No entanto, tendo a Recreio feito essa escolha, pergunta-se quais seriam os interesses de meninas dessa idade para a revista, com o objetivo de identificar a representação do “ser menina” desenhada pela Girls Recreio. Como conclusão, notamos que a revista reitera a cobertura superficial e estereotipada sobre a infância, em que a criança aparece apenas limitada às esferas do consumo, do lar e da escola, com especial reforço dos estereótipos de gênero.

Faça aqui o download gratuito do e-book “Mediações críticas: representações na cultura midiática”

TCC propõe jornal impresso voltado para crianças de sete a dez anos

Le_Pe-TitSe o jornalismo infantojuvenil não é alvo de muitas dissertações e teses, nos trabalhos de conclusão dos cursos de jornalismo, os produtos voltados para as crianças e adolescentes são mais comuns. Um dos exemplos é o trabalho de Katiusca Medeiros, desenvolvido no Fiam-Faam Centro Universitário, em São Paulo.

Em 2016, Katiusca elaborou o projeto do jornal Le-pe-ti, cujo número um, apresentado no TCC, pode ser visto aqui (em .pdf). O resumo do trabalho, orientado pelo professor Eduardo Correia, diz que o projeto

[…] propõe a realização de um produto jornalístico para crianças de sete a dez anos de idade, através da mídia impressa. Nele, serão abordados os conteúdos existentes nos noticiários para adultos, mas em uma linguagem direcionada exclusivamente às crianças, buscando o envolvimento, compreensão e desenvolvimento do olhar crítico. Temas como política, economia, problemas sociais, saúde, notícias internacionais, entre outros, serão abordados em editorias específicas. Este jornal também busca chamar a atenção de pais e educadores para que incentivem meninos e meninas a consumirem notícias de acordo com sua maturidade e respeitando seus limites. O jornal será uma forma de despertar a curiosidade da informação de uma forma simples, lúdica e interativa.

O projeto também ganhou uma página no Facebook, que continua a ser alimentada, com notícias do universo da infância.

Artigo na Famecos aborda a participação das crianças no jornalismo infantojuvenil

capa-famecosA última edição da Revista Famecos (janeiro, fevereiro, março e abril de 2018) contou com a publicação do artigo “A participação das crianças no jornalismo infantojuvenil português e brasileiro”, que traz alguns dos resultados da minha tese de doutorado.

O texto parte do pressuposto de que, para Buckingham (2009), os meninos e meninas devem exercer os seus direitos de participação, estabelecidos na Convenção sobre os Direitos da Criança (1989), também na área da produção midiática: segundo ele, as novas formas de comunicação on-line que as crianças têm à sua disposição são possíveis formas de assegurar esse direito.

A partir do debate, surge a seguinte questão: as crianças utilizam as novas tecnologias para interagir com os jornalistas que escrevem para elas? Para responder a isso,  entrevistei 50 crianças de nove a 16 anos de idade, em Portugal e no Brasil. Como conclusões, “o trabalho mostrou que, para que haja participação, é preciso que as crianças se sintam motivadas a acompanhar com frequência os veículos infantis — o que está atrelado à mediação adulta e à temática abordada pelas publicações”. Além disso, dois obstáculos aparecem: a ausência de resposta por parte dos produtores de informação e a preocupação das crianças em expor-se.

Artigo analisa as cartas enviadas à revista Ciência Hoje das Crianças

rumoresO artigo “‘Sou fã da revistinha’: as mensagens enviadas pelas crianças ao jornalismo infantojuvenil”, parte da minha tese de doutorado, foi publicado na revista Rumores (número 22 – julho a dezembro 2017), da USP.

O artigo, parte do pressuposto de que, ainda que o surgimento de novos meios de produção e canais de distribuição possibilite a democratização midiática, apenas a provisão de recursos não garante que os meninos e as meninas de fato queiram influenciar na produção jornalística.

Para debater essa questão, o trabalho analisou as correspondências recebidas pela revista brasileira Ciência Hoje das Crianças. Foram analisadas 250 correspondências, enviadas à revista no período de julho de 2013 a junho de 2014: dessas, 195 foram correios eletrônicos e as demais, cartas em papel.

“Notou-se que as missivistas, de modo voluntário ou estimulado por professores, enxergam o espaço de correspondência como uma plataforma pela qual podem intervir na oferta editorial da publicação, mas de modo reforçador, ou seja, pedindo mais do que já apreciam”, diz o texto.

 

 

‘Girls Recreio’ chega com enxurrada de críticas; leia resenha

A Recreio, que agora passou às mãos da editora Caras, gerou um filhote, chamado “Girls Recreio”, que chegou às bancas no fim do mês de março. Juliana Ravelli, que já trabalhou com jornalismo infantil, me deu o alerta: a revista estava recebendo uma chuva de críticas no Facebook. O que gerou até uma carta aberta da redatora-chefe, Carol Cristianini, em resposta aos questionamentos e publicada no Facebook:

Em resumo, as críticas (comentários em posts publicados na página da revista no Facebook) dizem que não há necessidade de um veículo para meninas, já que os assuntos abordados tanto na “Recreio” quando na “Girls Recreio” podem interessar aos dois gêneros. Além disso, muitos comentários dizem que as pautas são sexistas, reforçando estereótipos de gênero — sobretudo os que ligam o feminino ao fútil, à vaidade e ao consumismo.

O assunto gerou um post num blog hospedado no site do jornal “O Estado de S. Paulo”, o “Kids”, de autora da jornalista Carolina Delboni. O texto foi publicado na última segunda, dia 4. No mesmo dia, um canal do YouTube, o “Titias”, em que dois jovens comentam fatos da atualidade, abordou o assunto. Eles fazem considerações sobre a revista que, de certa forma, sintetizam as ideias expostas pelos críticos à “Girls” no Facebook:

A resposta da redatora-chefe diz que “depois de uma longa pesquisa, percebemos que as meninas em idade infantil não têm uma revista (apropriada para a idade, sem atingir aquilo que pertence apenas à adolescência) com esses temas exclusivos de um mundo apenas delas. Afinal, que mulher (adolescente ou já adulta) não tem um universo só seu?”. E também: “Mas não há como negar que meninas e meninos, desde os primeiros anos de vida, também possuem gostos distintos algo da natureza humana”.

Minha análise
A partir disso, teço aqui algumas considerações sobre a questão. A pesquisa da qual fala a jornalista Carol fala de um movimento que identifiquei em minha investigação: os “tweens”, ou pré-adolescentes, entre 10 e 13 anos, tendem a não querer ser identificados mais como crianças. Desejam se aproximar do universo da adolescência e dizem que os veículos infantojuvenis os atraíam apenas quando eram menores. As meninas, principalmente com 12 e 13 anos, começam a se interessar por publicações voltadas a adolescentes, e também para blogs e sites com essa temática. Nesse sentido, surgiram a Atrevidinha, voltada a pré-adolescentes, e a extinta Witch.

Sem avaliar o tipo de produção midiática voltada para essa faixa etária, a existência de publicações segmentadas por gênero parece se coadunar com um processo de socialização que toma forma nessa fase da vida em o gênero é aglutinador de pares (esse não é natural, como nada o é em sociedade, mas cultural — porém, não necessariamente pernicioso).

A “Girls Recreio”, no entanto, é voltada para meninas de seis a 11 anos, segundo o Meio&Mensagem, e tem como objetivo “desempenhar o papel da amiga informada, criativa e curiosa mostrando para a leitora novas tendências de comportamento, moda, beleza, viagem e entretenimento”. No meu doutorado falei com crianças a partir dos nove anos (e li cartas que elas enviaram a duas revistas infantojuvenis), em Portugal e no Brasil. Não apareceu, em minha investigação, a necessidade de um veículo separado para as meninas nessa faixa etária.

Garotos e garotas me relataram se interessar por assuntos em comum, como animais, carreira, curiosidades científicas, esportes, humor (piadas, por exemplo) e celebridades. Neste último caso, os ídolos às vezes são diferentes de acordo com o gênero, e às vezes não. O que ficou claro em minha pesquisa é que, assim como acontece com a imprensa adulta, a existência de veículos especializados em diferentes temas agradariam às crianças. Mas isso não comportaria revistas divididas por gênero.

No entanto, tendo a Recreio feito essa escolha, baseada em pesquisas de mercado, qual a ideia de que a revista faz do que seriam os interesses de crianças dessa idade? A revista está baseada no que se chama na academia de jornalismo pós-moderno, em que o tom de “aconselhamento” guia a revista, como se faz em diversos veículos para adultos –, a matéria de capa aborda amizade, inclusive quando há brigas entre as amigas; a matéria “Adotar faz bem” incentiva a adoção de cães –,  apoiado em serviços: “Tecnologia que facilita a vida”, sobre aplicativos; “Patine você também”. Nessa linha, há uma série de pautas tradicionais no jornalismo para crianças: curiosidades científicas, como o modo de fazer algodão-doce;  dicas de livros; entrevistas com celebridades juvenis; notas sobre produtos midiáticos voltados às crianças (sim, elas se interessam por isso, assim como os adultos); passatempos. O projeto gráfico privilegia letras grandes, com bom espaçamento, o que mostra preocupação com o público que ainda começa a leitura e há muita cor, ilustração e fotos de meninas. E o texto se dirige às crianças, com linguagem adequada à faixa etária.

Como apontam seus críticos, há de fato reportagens que reproduzem estereótipos de gênero, tanto na pauta quanto no texto, ou incentivam o consumo. Vamos falar sobre o último deles. As crianças estão na sociedade do consumo, assim como todos nós. E não acredito que, como aponta a jornalista Carolina Delboni, que “quando maiores, o mundo vai ensinar [os valores do consumo], porque elas serão inseridas no sistema”. Elas não “serão”, elas estão inseridos no mundo do consumo. É o que oferecemos a ela como sistema econômico, e elas têm seu próprio consumo (ainda que não tenham seu próprio dinheiro, há escolhas e desejos) e também participa do consumo das famílias. Falar com elas sobre isso me parece importante, para que elas saibam a diferença do consumo e do consumismo. Portanto, uma pauta como “Você é louca por compras” não me pareceu inadequada pelo tema, mas sim pelo modo como foi abordada.

Porque nem todas as crianças público-alvo da revista tem sequer a possibilidade de comprar de modo autônomo, como o texto parece indicar: “Não aja por impulso! Antes de comprar pergunte a si mesma se você precisa mesmo daquela compra ou objeto” ou “você deve ser o tipo de garota que tem certeza de que […] só abre a bolsa para ter aquilo que realmente quer ou precisa”. Há uma série de meninas que, ao ler o teste proposto, podem ficar ainda mais descontentes com o poder econômico da família ou com as restrições de seus responsáveis, por sentirem que não são como as outras, que tem dinheiro na bolsa. A ideia da matéria era alertar para o consumismo exagerado: do modo como foi feita, destaca que a compra faz parte do dia a dia das meninas. Esse poderia ser mote para a reportagem (teste pode ser muito redutor para o desenvolvimento do tema): Você recebe mesada? Sabe o que fazer com ela? Sua família não lhe dá mesada? Você entende o porquê disso?

Nessa mesma linha, outra reportagem dá dicas de combinação de roupas, para diferentes situações. As meninas (e os meninos) se preocupam com a roupa que vestem, assim como nós: o vestuário é um modo de afirmação de identidades (e isso não tem a ver com seguir modismos; veja que se recusar a vestir grifes ou tendências é uma forma de se afirmar). As crianças começam esse processo, já que, novamente, é isso que oferecemos a elas. E o fazem de acordo com a orientação de suas famílias.

Mas os “looks”, com a indicação das lojas das quais vieram as peças, contribui para o cotidiano infantil? Quantas leitoras terão o desejo de consumir esses itens, mas não poderão? Esse tipo de reportagem é comum no jornalismo adulto, mas os crescidos, em tese, já entendem que as combinações são inspirações para que você possa usar o que tem no armário, por vezes de um jeito diferente. A matéria não diz isso. Diz apenas que as amigas “podem se inspirar”. Seria melhor que o texto deixasse muito claro que são sugestões, que você pode ver o que há no armário, que se aproxima daquilo etc. Eis um espaço para falar sobre moda: O que é a moda? Por que segui-la? Por que não segui-la? Porém repito que essa não era uma preocupação das meninas que entrevistei: elas gostavam de suas roupas, me mostravam as peças, inclusive, mas pareciam já saber como usá-las.

Mesma situação em matérias que indicam perfumes ou cuidados com os cabelos: há um texto anterior sobre os fios e sobre fabricação das essências e depois indicação de produtos. Ou o caso da seção “Vitrine”, com objetos para o quarto. São mesmo necessárias essas listas (todas sem preço, aliás), se o público a quem elas se destina não é um consumidor autônomo? Não seria apenas uma repetição do formato adolescentes, sem refletir sobre a diferentes vivências das crianças em relação ao cotidiano dos “teens”?

Há ainda o texto “A Disney é mesmo um sonho”, que começa dizendo “se você planeja conhecer o Walt Disney World (ou já foi lá e está com saudades)”. É possível falar da Disney sem abordar isso na seção “#naestrada”. E mais um exemplo que resvala nesse campo do consumo, mas vai além: há dicas de maquiagem. Quantas meninas, dos seis aos 11 anos, têm permissão para se maquiarem — usando inclusive máscara para cílios e demaquilante?

Sobre o reforço dos estereótipo de gênero: a presença de determinados temas que seriam também do interesse dos meninos na Girls Recreio não necessariamente vinca as visões estereotipadas do feminino/masculino. Depende do modo como é feito e sobretudo está relacionado ao modo como isso aparece em publicações que os meninos leem. É claro que um garoto, ao ler a “Girls”, pode sentir desconforto ao ver que um tema de seu interesse está numa revista para garotas. Nesse caso, seria interessante que as publicações infantojuvenis que se dirigem aos dois gêneros sempre ampliassem a lupa e trouxessem temas voltadas tradicionalmente voltado a um gênero específico como forma de auxiliar na quebra dos papéis sociais estanques. E, uma revista para meninas, por sua vez, fizesse o mesmo em relação ao masculino: que fale sobre esportes tradicionalmente dos meninos, proponha experiências científicas, testes de matemática, matérias sobre meninas que não gostam de rosa e por aí vai. Algo que a “Girls”, infelizmente, não faz.

Tendo em vista a opção da revista pelas meninas, temas como consumo, receitas, horóscopo podem estar na pauta, ao meu ver, desde que sejam abordados de forma crítica, pensando nas diferentes meninas que podem ler a revista (em seus diferentes cotidianos, relações familiares, valores, pontos de vista).

Discuti em minha tese que o modo como o jornalismo infantojuvenil retrata as crianças ajuda na construção social da categoria da infância: ajuda os meninos e as meninas a entenderem o que é ser criança, o que se espera de uma criança, e o que ela deve esperar do mundo (os seus direitos, os seus deveres). Trata-se de um poder, que o jornalismo deve usar com muito cuidado. Naturalizar visões de mundo e comportamentos e, pior, apresentá-los como única forma possível não é contribuir para o dia a dia das meninas brasileiras.

Um detalhe antes de encerrar: há muitas fotos de meninas (modelos); há a preocupação de ter uma menina negra na capa. Mas não há fotos de meninos. E, o mais importante em minha opinião, não há falas de crianças: garotos ou garotas. Isso significa que a redação não entrevistou crianças para a edição (com a exceção da atriz Larissa Manoela). Em meu mestrado já havia defendido a tese que exponho aqui: essa é uma chave para fazer um melhor jornalismo infantojuvenil. Conversar com as crianças é a melhor maneira de descobrir a variedade de seus cotidianos e, assim, pensar melhores pautas. [Talvez tenham falado com meninas na pesquisa de mercado feita para a criação da revista: mas que perguntas foram feitas?] Se tivessem entrevistado garotas na matéria sobre amizades, veriam, por exemplo, que há meninas que têm meninos como melhores amigos. E a pauta ficaria mais rica. Se tivessem falado sobre compras com elas, veriam como essa relação da criança com o consumo é mais complexa e poderiam ajudar as crianças a solucionar os diversos problemas que enfrentam sobre o poder ou não de compra.

Em resumo, não vejo necessidade na “Girls”, mas, como ela existe (e investimento em jornalismo infantojuvenil é raro), que a redação (e a empresa publicadora) amplie o espectro do “ser menina” hoje. Sei que pensar sobre o próprio trabalho não é tarefa fácil. Esse texto tem a intenção de contribuir para isso.

 

‘Pequeno leitor’ é resenhado na Verso e Reverso

A última edição da revista “Verso e Reverso”, publicada pela Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), traz resenha do livro “Pequeno leitor de papel”, fruto de minha dissertação de mestrado, defendida na Universidade de São Paulo. A avaliação foi feita pela professora Thaís Helena Furtado, também da Unisinos, cujo doutorado se voltou ao jornalismo infantil. Leia sua tese aqui.

No texto, cujo título é “A importância social da voz das crianças no jornalismo”verso, Thaís diz que “pensar sobre como é produzido o jornalismo infantil impresso no Brasil […] é, ao mesmo tempo, ir às origens e apontar questões futuras de uma questão ainda nebulosa: o que está em jogo quando se pensa na relação da criança com a mídia?”.

Nesse sentido, ela entende que o consumismo, tema sempre explorado nos estudos da relação entre infância e mídia e tradicionalmente vinculado à TV, também deve ser analisado no jornalismo impresso para crianças. E mostra que minha pesquisa traz conclusões que podem auxiliar a pesquisa nessa área:

Na sociedade contemporânea, para que um grupo seja socialmente aceito, é necessário que ele tenha poder de consumo. Se, por um lado, a mídia – e, em especial, o jornalismo – ajuda a fortalecer grupos sociais, se direcionando a eles, também acaba por estimular o consumismo nesses grupos. E aí está outra importante conclusão da pesquisa de Doretto (2013): nem sempre as crianças são ouvidas, e os temas noticiosos pouco aparecem nos suplementos. Ou seja, a opinião das crianças ainda não é totalmente valorizada.