‘Girls Recreio’ chega com enxurrada de críticas; leia resenha

A Recreio, que agora passou às mãos da editora Caras, gerou um filhote, chamado “Girls Recreio”, que chegou às bancas no fim do mês de março. Juliana Ravelli, que já trabalhou com jornalismo infantil, me deu o alerta: a revista estava recebendo uma chuva de críticas no Facebook. O que gerou até uma carta aberta da redatora-chefe, Carol Cristianini, em resposta aos questionamentos e publicada no Facebook:

Em resumo, as críticas (comentários em posts publicados na página da revista no Facebook) dizem que não há necessidade de um veículo para meninas, já que os assuntos abordados tanto na “Recreio” quando na “Girls Recreio” podem interessar aos dois gêneros. Além disso, muitos comentários dizem que as pautas são sexistas, reforçando estereótipos de gênero — sobretudo os que ligam o feminino ao fútil, à vaidade e ao consumismo.

O assunto gerou um post num blog hospedado no site do jornal “O Estado de S. Paulo”, o “Kids”, de autora da jornalista Carolina Delboni. O texto foi publicado na última segunda, dia 4. No mesmo dia, um canal do YouTube, o “Titias”, em que dois jovens comentam fatos da atualidade, abordou o assunto. Eles fazem considerações sobre a revista que, de certa forma, sintetizam as ideias expostas pelos críticos à “Girls” no Facebook:

A resposta da redatora-chefe diz que “depois de uma longa pesquisa, percebemos que as meninas em idade infantil não têm uma revista (apropriada para a idade, sem atingir aquilo que pertence apenas à adolescência) com esses temas exclusivos de um mundo apenas delas. Afinal, que mulher (adolescente ou já adulta) não tem um universo só seu?”. E também: “Mas não há como negar que meninas e meninos, desde os primeiros anos de vida, também possuem gostos distintos algo da natureza humana”.

Minha análise
A partir disso, teço aqui algumas considerações sobre a questão. A pesquisa da qual fala a jornalista Carol fala de um movimento que identifiquei em minha investigação: os “tweens”, ou pré-adolescentes, entre 10 e 13 anos, tendem a não querer ser identificados mais como crianças. Desejam se aproximar do universo da adolescência e dizem que os veículos infantojuvenis os atraíam apenas quando eram menores. As meninas, principalmente com 12 e 13 anos, começam a se interessar por publicações voltadas a adolescentes, e também para blogs e sites com essa temática. Nesse sentido, surgiram a Atrevidinha, voltada a pré-adolescentes, e a extinta Witch.

Sem avaliar o tipo de produção midiática voltada para essa faixa etária, a existência de publicações segmentadas por gênero parece se coadunar com um processo de socialização que toma forma nessa fase da vida em o gênero é aglutinador de pares (esse não é natural, como nada o é em sociedade, mas cultural — porém, não necessariamente pernicioso).

A “Girls Recreio”, no entanto, é voltada para meninas de seis a 11 anos, segundo o Meio&Mensagem, e tem como objetivo “desempenhar o papel da amiga informada, criativa e curiosa mostrando para a leitora novas tendências de comportamento, moda, beleza, viagem e entretenimento”. No meu doutorado falei com crianças a partir dos nove anos (e li cartas que elas enviaram a duas revistas infantojuvenis), em Portugal e no Brasil. Não apareceu, em minha investigação, a necessidade de um veículo separado para as meninas nessa faixa etária.

Garotos e garotas me relataram se interessar por assuntos em comum, como animais, carreira, curiosidades científicas, esportes, humor (piadas, por exemplo) e celebridades. Neste último caso, os ídolos às vezes são diferentes de acordo com o gênero, e às vezes não. O que ficou claro em minha pesquisa é que, assim como acontece com a imprensa adulta, a existência de veículos especializados em diferentes temas agradariam às crianças. Mas isso não comportaria revistas divididas por gênero.

No entanto, tendo a Recreio feito essa escolha, baseada em pesquisas de mercado, qual a ideia de que a revista faz do que seriam os interesses de crianças dessa idade? A revista está baseada no que se chama na academia de jornalismo pós-moderno, em que o tom de “aconselhamento” guia a revista, como se faz em diversos veículos para adultos –, a matéria de capa aborda amizade, inclusive quando há brigas entre as amigas; a matéria “Adotar faz bem” incentiva a adoção de cães –,  apoiado em serviços: “Tecnologia que facilita a vida”, sobre aplicativos; “Patine você também”. Nessa linha, há uma série de pautas tradicionais no jornalismo para crianças: curiosidades científicas, como o modo de fazer algodão-doce;  dicas de livros; entrevistas com celebridades juvenis; notas sobre produtos midiáticos voltados às crianças (sim, elas se interessam por isso, assim como os adultos); passatempos. O projeto gráfico privilegia letras grandes, com bom espaçamento, o que mostra preocupação com o público que ainda começa a leitura e há muita cor, ilustração e fotos de meninas. E o texto se dirige às crianças, com linguagem adequada à faixa etária.

Como apontam seus críticos, há de fato reportagens que reproduzem estereótipos de gênero, tanto na pauta quanto no texto, ou incentivam o consumo. Vamos falar sobre o último deles. As crianças estão na sociedade do consumo, assim como todos nós. E não acredito que, como aponta a jornalista Carolina Delboni, que “quando maiores, o mundo vai ensinar [os valores do consumo], porque elas serão inseridas no sistema”. Elas não “serão”, elas estão inseridos no mundo do consumo. É o que oferecemos a ela como sistema econômico, e elas têm seu próprio consumo (ainda que não tenham seu próprio dinheiro, há escolhas e desejos) e também participa do consumo das famílias. Falar com elas sobre isso me parece importante, para que elas saibam a diferença do consumo e do consumismo. Portanto, uma pauta como “Você é louca por compras” não me pareceu inadequada pelo tema, mas sim pelo modo como foi abordada.

Porque nem todas as crianças público-alvo da revista tem sequer a possibilidade de comprar de modo autônomo, como o texto parece indicar: “Não aja por impulso! Antes de comprar pergunte a si mesma se você precisa mesmo daquela compra ou objeto” ou “você deve ser o tipo de garota que tem certeza de que […] só abre a bolsa para ter aquilo que realmente quer ou precisa”. Há uma série de meninas que, ao ler o teste proposto, podem ficar ainda mais descontentes com o poder econômico da família ou com as restrições de seus responsáveis, por sentirem que não são como as outras, que tem dinheiro na bolsa. A ideia da matéria era alertar para o consumismo exagerado: do modo como foi feita, destaca que a compra faz parte do dia a dia das meninas. Esse poderia ser mote para a reportagem (teste pode ser muito redutor para o desenvolvimento do tema): Você recebe mesada? Sabe o que fazer com ela? Sua família não lhe dá mesada? Você entende o porquê disso?

Nessa mesma linha, outra reportagem dá dicas de combinação de roupas, para diferentes situações. As meninas (e os meninos) se preocupam com a roupa que vestem, assim como nós: o vestuário é um modo de afirmação de identidades (e isso não tem a ver com seguir modismos; veja que se recusar a vestir grifes ou tendências é uma forma de se afirmar). As crianças começam esse processo, já que, novamente, é isso que oferecemos a elas. E o fazem de acordo com a orientação de suas famílias.

Mas os “looks”, com a indicação das lojas das quais vieram as peças, contribui para o cotidiano infantil? Quantas leitoras terão o desejo de consumir esses itens, mas não poderão? Esse tipo de reportagem é comum no jornalismo adulto, mas os crescidos, em tese, já entendem que as combinações são inspirações para que você possa usar o que tem no armário, por vezes de um jeito diferente. A matéria não diz isso. Diz apenas que as amigas “podem se inspirar”. Seria melhor que o texto deixasse muito claro que são sugestões, que você pode ver o que há no armário, que se aproxima daquilo etc. Eis um espaço para falar sobre moda: O que é a moda? Por que segui-la? Por que não segui-la? Porém repito que essa não era uma preocupação das meninas que entrevistei: elas gostavam de suas roupas, me mostravam as peças, inclusive, mas pareciam já saber como usá-las.

Mesma situação em matérias que indicam perfumes ou cuidados com os cabelos: há um texto anterior sobre os fios e sobre fabricação das essências e depois indicação de produtos. Ou o caso da seção “Vitrine”, com objetos para o quarto. São mesmo necessárias essas listas (todas sem preço, aliás), se o público a quem elas se destina não é um consumidor autônomo? Não seria apenas uma repetição do formato adolescentes, sem refletir sobre a diferentes vivências das crianças em relação ao cotidiano dos “teens”?

Há ainda o texto “A Disney é mesmo um sonho”, que começa dizendo “se você planeja conhecer o Walt Disney World (ou já foi lá e está com saudades)”. É possível falar da Disney sem abordar isso na seção “#naestrada”. E mais um exemplo que resvala nesse campo do consumo, mas vai além: há dicas de maquiagem. Quantas meninas, dos seis aos 11 anos, têm permissão para se maquiarem — usando inclusive máscara para cílios e demaquilante?

Sobre o reforço dos estereótipo de gênero: a presença de determinados temas que seriam também do interesse dos meninos na Girls Recreio não necessariamente vinca as visões estereotipadas do feminino/masculino. Depende do modo como é feito e sobretudo está relacionado ao modo como isso aparece em publicações que os meninos leem. É claro que um garoto, ao ler a “Girls”, pode sentir desconforto ao ver que um tema de seu interesse está numa revista para garotas. Nesse caso, seria interessante que as publicações infantojuvenis que se dirigem aos dois gêneros sempre ampliassem a lupa e trouxessem temas voltadas tradicionalmente voltado a um gênero específico como forma de auxiliar na quebra dos papéis sociais estanques. E, uma revista para meninas, por sua vez, fizesse o mesmo em relação ao masculino: que fale sobre esportes tradicionalmente dos meninos, proponha experiências científicas, testes de matemática, matérias sobre meninas que não gostam de rosa e por aí vai. Algo que a “Girls”, infelizmente, não faz.

Tendo em vista a opção da revista pelas meninas, temas como consumo, receitas, horóscopo podem estar na pauta, ao meu ver, desde que sejam abordados de forma crítica, pensando nas diferentes meninas que podem ler a revista (em seus diferentes cotidianos, relações familiares, valores, pontos de vista).

Discuti em minha tese que o modo como o jornalismo infantojuvenil retrata as crianças ajuda na construção social da categoria da infância: ajuda os meninos e as meninas a entenderem o que é ser criança, o que se espera de uma criança, e o que ela deve esperar do mundo (os seus direitos, os seus deveres). Trata-se de um poder, que o jornalismo deve usar com muito cuidado. Naturalizar visões de mundo e comportamentos e, pior, apresentá-los como única forma possível não é contribuir para o dia a dia das meninas brasileiras.

Um detalhe antes de encerrar: há muitas fotos de meninas (modelos); há a preocupação de ter uma menina negra na capa. Mas não há fotos de meninos. E, o mais importante em minha opinião, não há falas de crianças: garotos ou garotas. Isso significa que a redação não entrevistou crianças para a edição (com a exceção da atriz Larissa Manoela). Em meu mestrado já havia defendido a tese que exponho aqui: essa é uma chave para fazer um melhor jornalismo infantojuvenil. Conversar com as crianças é a melhor maneira de descobrir a variedade de seus cotidianos e, assim, pensar melhores pautas. [Talvez tenham falado com meninas na pesquisa de mercado feita para a criação da revista: mas que perguntas foram feitas?] Se tivessem entrevistado garotas na matéria sobre amizades, veriam, por exemplo, que há meninas que têm meninos como melhores amigos. E a pauta ficaria mais rica. Se tivessem falado sobre compras com elas, veriam como essa relação da criança com o consumo é mais complexa e poderiam ajudar as crianças a solucionar os diversos problemas que enfrentam sobre o poder ou não de compra.

Em resumo, não vejo necessidade na “Girls”, mas, como ela existe (e investimento em jornalismo infantojuvenil é raro), que a redação (e a empresa publicadora) amplie o espectro do “ser menina” hoje. Sei que pensar sobre o próprio trabalho não é tarefa fácil. Esse texto tem a intenção de contribuir para isso.

 

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‘Pequeno leitor’ é resenhado na Verso e Reverso

A última edição da revista “Verso e Reverso”, publicada pela Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), traz resenha do livro “Pequeno leitor de papel”, fruto de minha dissertação de mestrado, defendida na Universidade de São Paulo. A avaliação foi feita pela professora Thaís Helena Furtado, também da Unisinos, cujo doutorado se voltou ao jornalismo infantil. Leia sua tese aqui.

No texto, cujo título é “A importância social da voz das crianças no jornalismo”verso, Thaís diz que “pensar sobre como é produzido o jornalismo infantil impresso no Brasil […] é, ao mesmo tempo, ir às origens e apontar questões futuras de uma questão ainda nebulosa: o que está em jogo quando se pensa na relação da criança com a mídia?”.

Nesse sentido, ela entende que o consumismo, tema sempre explorado nos estudos da relação entre infância e mídia e tradicionalmente vinculado à TV, também deve ser analisado no jornalismo impresso para crianças. E mostra que minha pesquisa traz conclusões que podem auxiliar a pesquisa nessa área:

Na sociedade contemporânea, para que um grupo seja socialmente aceito, é necessário que ele tenha poder de consumo. Se, por um lado, a mídia – e, em especial, o jornalismo – ajuda a fortalecer grupos sociais, se direcionando a eles, também acaba por estimular o consumismo nesses grupos. E aí está outra importante conclusão da pesquisa de Doretto (2013): nem sempre as crianças são ouvidas, e os temas noticiosos pouco aparecem nos suplementos. Ou seja, a opinião das crianças ainda não é totalmente valorizada.

‘Folhinha’ explica crise dos refugiados às crianças

guerraO suplemento para crianças da “Folha de S.Paulo”, a “Folhinha”, trouxe em sua última edição um texto sobre os refugiados que chegam à Europa fugindo da guerra da Síria: leia aqui.

A imagem do menino morto nas areias da Turquia percorreu o mundo, enchendo páginas de jornal, telas de TV e sites de notícias. Nessa avalanche de informações, é de esperar que as crianças tenham visto essa imagem (ou outras sobre a crise dos refugiados), e não tenham entendido bem a situação: os pais não lhe falam sobre isso, achando que não interessa aos filhos, ou a escola pode não ter achado que era um assunto adequado aos meninos e meninas, sobretudo aos mais novos.

No entanto,pesquisas na área indicam que as crianças se solidarizam com outras em sofrimento e, quando não entendem o que acontece, o medo e a ansiedade tendem a crescer. Daí a importância de um trabalho como a “Folhinha”.

O caderno perdeu metade de suas páginas neste ano — de oito para quatro páginas –, mas, apesar dessa redução, que deu menos espaço ao desenvolvimento de reportagens, o texto de Diogo Bercito cumpre bem sua função. E o veículo, acertadamente, evita a imagem da criança morta. Recomendo aos pais que leiam com os filhos ou indiquem a eles a leitura.

A “Folhinha” já tinha feito isso antes, em 2014, analisado neste blog. Veja aqui.

Leia artigo publicado em dossiê sobre infância na América Latina

‘Escreva-nos’: a participação do leitor no jornalismo infantojuvenil brasileiro e português é o título de artigo publicado na nova edição da “Ponta-e-Vírgula” (capa abaixo). A revista, coordenada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC de SP, traz neste número o dossiê “Infâncias, culturas e contextos políticos na América Latina”, do qual o texto faz parte.

O dossiê é um proposta do do Grupo de Trabalho “Juventudes, Infancias: políticas, culturas e instituciones sociales” da Clacso (Consejo Latinoamericanocover_issue_1446_pt_BR de Ciencias Sociales). Meu artigo deriva de um texto que foi apresentado no 3º Congresso Literacia, Media e Cidadania, em Lisboa, em abril. O resumo segue abaixo:

Este trabalho trata da participação de leitores no jornalismo infantil no Brasil e em Portugal. Discutimos o que Buckingham (2009) entende como direito à participação nos media: é preciso “ver as crianças a conseguirem falar mais directamente, colectivamente e aos produtores e legisladores”. Nesta proposta, analisamos cartas enviadas à revista mensal “Visão Júnior”, única publicação jornalística destinada às crianças em Portugal, e ao magazine brasileiro “Ciência Hoje das Crianças”, voltado à divulgação científica para o público infantojuvenil. Estudamos as cartas publicadas no primeiro semestre de 2014 pelas duas revistas. Observamos que as sugestões de pauta são as que predominam, o que indica uma audiência infantil ativa, que busca melhores representações midiáticas da infância contemporânea. Nota-se também que boa parte das mensagens foi enviada por meninas, que, ao contrário dos meninos, parecem cultivar uma relação de fã com o jornalismo a elas destinado.

Portugal tem campanha de crowdfunding para jornal infantil

Um campanha de crowdfunding (financiamento coletivo) lançada em Portugal quer arrecadar dinheiro para o lançamento de um “primeiro semanário de atualidades impresso” para o público infantil no país. O Jornalix teria distribuição nacional e seria destinado a crianças entre os 8 e 14 anos.

Segundo Léa López, criadora do projeto, os objetivos do jornal serão “descodificar a atualidade e criar um maior interesse por conteúdos de cultura geral para estas idades; Informar de forma adequada os jovens sobre os eventos mundiais e nacionais; desenvolver preocupação cívica; aproximar os pais dos seus filhos com assuntos reais; ajudar os adultos na releitura do mundo para os jovens; e apoiar os professores no reforço da cidadania dos seus alunos; entre outros.

O valor pedido é bastante alto: 30 mil euros. E, por enquanto, o valor arrecadado com a campanha, que teve início em 15 de maio está longe disso (cerca de 500 euros). Como recompensa pela ajuda, os apoiadores receberão assinaturas do jornal ou poderão fazer anúncios em suas páginas. Veja abaixo o vídeo que apresenta a ideia e anuncia a campanha:

Artigo em congresso sobre literacia analisa cartas da ‘Visão Júnior’

3congressoNeste mês, nos dias 17 e 18, apresentei artigo no 3º Congresso sobre Literacia, Media e Cidadania, realizado no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

Falei sobre o trabalho “‘Escreve-nos’: uma análise das cartas da Visão Júnior”, derivado, como sempre, da minha pesquisa de doutorado (e na continuidade de um trabalho apresentado em workshop aqui em Lisboa). Leia o resumo do artigo abaixo:

Este trabalho é derivado de pesquisa de doutoramento (bolsa Capes 0860/13-1), que trata da participação do leitorado no jornalismo infantil no Brasil e em Portugal. Nesse sentido, discutimos o que Buckingham (2009) entende como direito à participação nos media: é preciso “ver as crianças a conseguirem falar mais directamente, colectivamente e aos produtores e legisladores”. Nesta proposta, analisamos cartas enviadas à revista mensal “Visão Júnior”, única publicação jornalística destinada às crianças em Portugal, para leitores de 6 a 14 anos.

Silva (2014), que estudou as cartas dos leitores da imprensa portuguesa, ressalta que o espaço democrático que poderia ser proporcionado pela seção de missivas do leitorado esbarra em obstáculos como a seleção do que é publicado (que privilegia redações curtas) e a escassez de espaço.

Em nossa pesquisa, analisamos as cartas divulgadas no primeiro semestre de 2014 pela “Visão Júnior”. Foram 42 correspondências publicadas, e em apenas quatro delas não houve algum tipo de resposta da revista, o que aponta certo movimento dialógico, maior do que mostrado por Silva no jornalismo para adultos. Isso é confirmado pela análise de algumas dessas respostas. Destacamos aqui oito positivas (aceitando e implementando sugestões), seis solicitando mais informações para as crianças (a fim de concretizar as pautas) e duas dizendo que não é possível atender à solicitação.

Observamos ainda que as sugestões de pauta são as que predominam (por volta de 70%), o que indica uma audiência infantil ativa. Mas apenas três mensagens fazem críticas ou apontam erros, o que pode denotar pouca confiança das crianças de que a revista vá confessar deslizes. Nota-se também que cerca de 70% das mensagens foram enviadas por meninas: o que sugere que elas sejam uma audiência mais ativa do que os meninos.

Os anais do evento, com o texto no íntegra, ainda não foram divulgados.

Programa online da ‘Gazeta do Povo’ coleciona lugares-comuns da infância

O jornal brasileiro “Gazeta do Povo”, o maior do Estado do Paraná, lançou nesta segunda (18), em seu canal de TV online, o “Jornal da Galera”. Segundo a página da ÓTV, o programa “é uma forma diferente de contar os principais destaques do jornal Gazeta do Povo usando uma linguagem que facilite o entendimento das crianças”.

jornal-da-galera-programaO que poderia ser uma boa e inovadora ideia tornou-se num caldeirão de lugares-comuns sobre a infância: com tom professoral, uma jornalista senta-se atrás de uma bancada, com cenário colorido ao fundo, e comenta notícias da edição do dia do jornal, acompanhada todo o tempo de uma música instrumental que lembra as que tocam em brinquedos para crianças menores. Enquanto fala, a apresentadora levanta as páginas do diário, e a câmera fica estática, num plano médio, que mostra a jornalista e a bancada. Ou seja, não há close no jornal, nem uma imagem de cobertura, com um infográfico ou um detalhe da página impressa.

Para além das deficiências de formato e gráficas, a fala da apresentadora lembra a de uma professora que explica aos alunos o que eles vão encontrar no jornal — como se eles nunca tivessem folheado um jornal na vida. E faz comentários gerais sobre as notícias, que não vão nada além do que elas viram quando assistiram ao telejornal com os pais (o que é muito comum, segundo indicam as minhas pesquisas). Para fechar, segue uma série de “ordens” e sugestões para as crianças: “pergunta [pro pai e pra mãe]; “sempre que você perder um jogo do seu time favorito, você pode ler a ‘Gazeta Esportiva'”; “você vai descobrir que o mundo dos esportes é muito bacana”… — como se a criança fosse um tábua rasa, sempre ansiando por conselhos do que e de como fazer.

O primeiro programa está disponível no seguinte link.