Após 52 anos, ‘Folhinha’ deixa de circular

2016-04-16 19.40.45Uma nota, no pé de página. E assim a “Folha” anuncia o fim da “Folhinha”, depois de cinco décadas de existência. O jornal promete maiores explicações em texto a ser publicado neste domingo (17), mas adianta que “os assuntos tratados aqui [na ‘Folhinha’] estarão na nova revista ‘sãopaulo'”. Então o “jornal a serviço da criança” passará a ser “assuntos tratados” numa revista voltada para adultos? E onde está a explicação da Folha aos leitores crianças da “Folhinha”? Cabe a eles ler um texto dentro de um suplemento adulto, em linguagem adulta, para descobrir por que razão seu suplemento não existirá mais? Esse é o respeito com que deve ser tratado um público que pode vir a ser aquele que sustentará o jornal como um todo nos próximos anos?

O que se passa com a “Folha”, que já tinha reduzido o tamanho do caderno ao máximo e desmantelado a equipe que o produzia? Esse investimento mínimo comprometia as finanças da empresa? O que se passa com a “Folha”, que acha que conquistará novos leitores apenas pela sua “importância” no cenário social brasileiro? Conquistar e fidelizar jovens leitores não é mais importante? E a função social do jornalismo, que envolve informar a sociedade como todo? Não é mais dever da “Folha”? Ou as crianças é que, para o jornal, não são parte da sociedade?

Talvez fique o canal online da “Folhinha”, mas, ainda que isso aconteça, por que todo o jornal então não passa a ser uma plataforma digital? Se isso por acaso bastar para a “Folhinha”, deveria ser suficiente para o jornal como um todo, não? Sabe-se que não é por aí: é mais do que o papel, é o modo de fazer jornalismo impresso (sua formatação; a informação que seu desenho passa, para além do texto; o tipo de jornalismo que se espera de um grande diário) e a credibilidade histórica desse formato que impedem a “Folha” de, por enquanto, migrar totalmente para o online. E, veja bem, trata-se apenas de uma hipótese. Não se sabe ainda se a “Folhinha” terá alguma sobrevida –pobre, com certeza (sem equipe, sem investimento) — no online.

Isso posto, esperava-se no mínimo um último número especial, que fizesse jus à história bonita que a “Folhinha” trilhou por décadas. Será que se um dia houver um último número da “Folha” em papel o jornal também acabará em uma nota mínima num canto de página?

Por ironia, no dia em que a “Folhinha” acaba, o Brasil ganha um telejornal para crianças, do qual falarei no próximo post. Mas não se trata de uma troca; não é recompensador ou equivalente. Há um ganho de um lado, mas uma perda considerável de outro: perde-se uma tradição, perde-se um espaço num produto de impacto; perde-se um modelo que foi seguido por outros suplementos infantis. Aliás, os dois principais jornais de São Paulo, e dois dos mais importantes do Brasil, “Folha” e “Estado” não falam mais para crianças. E isso é simplesmente muito triste.

PS: Espero que expliquem para a colunista criança deste mês da “Folhinha” que suas colunas não serão publicadas até o fim. Pelo menos não no mesmo espaço. Pelo menos a ela a explicação deve ter sido maior do que um parágrafo num canto de página.

 

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